Ai, Ai, Carolina e Kuduro: Os Vilões

Imagem de Amostra do You Tube

Fico realmente preocupado quando, numa casa, o único objeto que não junta pó é o controle remoto da TV.

Lembro um dia em que entrei num casebre e vi um desses quadros comprados em feira-livre, a imagem de São Sebastião, crivado de flechas e poeira…

Vivemos uma época singular, decerto. Vejam as músicas que andam nas cabeças e nas bocas; é um “ai isso” um “ai aquilo”; com um simples ai se faz uma revolução silábica. Há também o kuduro, cujo refinamento auditivo me recuso a analisar.

As séries de TV, sobretudo as norte-americanas de canal pago dão também o tom da época; são baseadas no caos como The walking dead ou American History Horror, ou outra em que alienígenas despedaçam a invencível Nova Iorque. A pauta é a aniquilação total.

Claro que as bem produzidas séries erram no gênero, mas acertam na espécie: a aniquilação se dará, mas não em forma de uma calamidade alienígena ou do upgrade de humanos em zumbis; por obvio que não.

Veja também como o brazil se comove com ninharias. Vamos ao caso da Carolina Dieckmann. Quantas vezes a moça, belíssima atriz, não se mostrou em filmes ou novelas em cenas picantes ou em trajes sumaríssimos? Claro está que o crime cometido contra ela deve ser punido. Mas tal foi a grita que pensei que tivessem desnudado Madre Tereza. Mal comparando, é como se se revelasse o extrato bancário de um banqueiro; sabemos o que se vai encontrar.

8 milhões de acessos; poderia ter sido 7.999.999, se eu também não fosse voraz em degustar os efeitos dos crimes alheios.

O BNDES, meu banco, nosso banco, é o maior financiador da construtora Delta, por já engolfada no mais novo escândalo republicano onde estão os protestos?

O governador do RJ, é flagrado com a gangue do guardanapo, confraternizando em Paris com asseclas e o dono da construtora que mais recebeu contratos em sua gestão. Gastaram à beça. Zombaram idem. Mas com pólvora alheia eu dou tiro até em beija-flor. O senador Demostenes Torres foi ouvindo pedindo caixas do Cheval Blanc 1947, cuja garrafa custa coisa de 50 mil reais. O que se ouviu? Um enorme silêncio.

Vê como não são catástrofes interplanetárias nem zumbis que darão termo a esta civilização? São vinhos, músicas e bisbilhotices sexuais os grandes vilões da espécie.

Publicado em Crônicas | Deixar um comentário

Karoshi – Drama e Poesia

Imagem de Amostra do You Tube

Na primorosa e estupenda canção “Primeiro de Maio” de Milton Buarque e do Chico Nascimento, há uma imagem de uma extraordinariedade acachapante, entoada na terceira estrofe que você já já irá ler se não estiver impaciente nem com o texto nem com o seu trabalho:

A história da música retrata a mini-odisséia de um operário em pleno Dia do Trabalho, feriado mundial, dia em que “a cidade está parada” ele irá encontrar a namorada: poemisa a primeira estrofe:

Hoje a cidade está parada

E ele apressa a caminhada

Pra acordar a namorada logo ali

E vai sorrindo, vai aflito

Pra mostrar, cheio de si

Que hoje ele é senhor das suas mãos

E das ferramentas…

A precariedade do trabalhador sem partido ganha ares de heroísmo na poesia, um heroísmo lúdico na figura do namorado que “apressa a caminhada/ pra acordar a namorada” contraponto exato ao homem que não se apressa para encontrar a jornada de trabalho tediosa e mal remunerada em regra, um trabalho que mói seu corpo e seus sonhos.

No Japão, um trabalhador que tinha consumido apenas 35 dos 78 anos a que tinha direito segundo vislumbra a expectativa de vida daquele país, morreu por excesso de trabalho: “Só encontrava felicidade na hora de dormir”, confessou ele à esposa. No Japão, tão endêmico é o caso de morte por excesso de trabalho, que há até um termo específico para o fenômeno: KAROSHI (KKARO= excesso de trabalho e SHI = Morte).

O trabalhador da dupla Milton & Chico é a encarnação de um ideário já morto e sepultado pela necessidade de executar mecanicamente um serviço emburrecedor, que forja uma sociedade andróide que só obedece a sirena da usina.

 Segunda estrofe:

Quando a sirene não apita

Ela acorda mais bonita

Sua pele é sua chita, seu fustão

E, bem ou mal, é o seu veludo

É o tafetá que Deus lhe deu

E é bendito o fruto do suor

Do trabalho que é só seu

A sirene muda do feriado faz a namorada acordar até mais bela: provavelmente operária de uma indústria têxtil, ela faz da sua pele sua “chita”, tecido grosseiro de má qualidade e já a transforma em “fustão”, uma seda nobre que se transforma em veludo, a pele como vestimenta nobre, “o tafetá que Deus lhe deu”. Há uma comunicação tão eloqüente entre a operária da música e o japonês assassinado, como se ela quisesse salvar todos os trabalhadores dessa firma cruel chamada Terra S/A.T.  Sem Amor ao Trabalhador.

Por fim:

Hoje eles hão de consagrar

O dia inteiro pra se amar tanto

Ele, o artesão

Faz dentro dela a sua oficina

E ela, a tecelã

Vai fiar nas malhas do seu ventre

O homem de amanhã

O desfecho é necessariamente erótico. Os próprios heróis se entregam, incapazes de brecar a roda-viva, máquina de moer gente, juntam-se ambos os amantes para produzirem, como se eles mesmos fossem a extensão das indústrias onde trabalham, mais um homem, uma peça minúscula da imensa engrenagem que faz o mundo rodar torto, débil, claudicante.

Publicado em Crônicas | Deixar um comentário

Ao Tricampeão

Essa é a imagem que todos gostaríamos de ter visto às 09h18 do triste primeiro de maio de 1994.

Devemos ao artista lituano Oleg Konin o que a realidade, infelizmente, não pôde realizar.

Publicado em Crônicas | Deixar um comentário

Kafka na Novela da Globo

Imagem de Amostra do You Tube

Prova de que o inesperado serve para amaciar terrenos túrgidos: estava eu a ler o Diário da Corte do Paulo Francis, e sou açoitado por uma voz oriunda do quarto, “corre aqui!”, disse a voz – era minha esposa, entre pálida e inesperada, assistindo à novela das nove em que a personagem principal na pele de Murilo Benício, o Tufão (é isso?) está lendo A Metamorfose para a filha pequenina.

A menina parece perguntar ao pai porque o rapaz se transforma numa barata, ele explica como pode, e ela entende idem. Daí em diante ficou assim: parece que uma miss Brasil trocou O Pequeno Príncipe por O Castelo, e acabo de ser informado de que o pai do ex-jogador Ronaldo Fenômeno andou a exibir, em pleno programa Fantástico, A Carta ao Pai, também de Kafka. Pelos anéis de Saturno!

Eu poderia muito bem ficar espantado com tanta popularidade do escritor tcheco, mas pendo mesmo para o lado mais acidental e cabalístico do fenômeno.

Se Kafka se tornar um produto de consumo, assim como Mozart que virou embalagem de chocolate, não resta dúvida de que este é o sétimo cavaleiro do apocalipse. Kafka na novela da Globo. Kafka na boca duma miss.

Mas seria isto possível? Kafka pereceu em 1924. Só é admirado e popularíssimo entre certa gente anêmica e solitária que ambos somados deságuam num melancólico pessimista. É um terreno estranho e inóspito. É uma violência que de repente enfiem o maior mito literário do Século XX numa novela de horário nobre. E se algum noveleiro memorizou nos 20 segundos que durou a cena o nome do homem? E se toca a escarafunchar-lhe as obras, os fragmentos, os contos, os delírios? E se este espectador sorrateiro passa a tomar consciência de si? E se descobrir do alto de seus 20, 30, 40, 50, 60 anos que a existência não é uma papa de aveia? E se quiser questionar a si e depois ao mundo, a política e tudo o mais?

Pena não podermos ouvir o poeta sionista. Se mal o conheço, provavelmente diria que é um caso de afetação, mera extravagância burocrática para empalidecer os sentidos… mas não.

Um sujeito curioso como Franz Kafka escapa a todos os sentidos e fórmulas. De alguma forma ele previu os horrores do nazismo em textos absurdamente proféticos. Foi de suas primeiras mágicas. Quem sabe não estejamos na segunda fase de sua inquietante natureza mística: em sua biografia, um amigo revela este excerto saboroso:

Chegamos a casa de Kafka, e seu pai nos recebeu friamente. Cochichando Kafka me disse:

- É meu pai. Ele se preocupa comigo. O amor muitas vezes têm o rosto da violência.”

Publicado em Crônicas | 3 comentários

Elogio da Angústia

Segundo nos dá a saber a inglesa Viviane Forrester ‘Van Gogh queria se calar em todas as línguas do mundo’ com o claro objetivo de querer ser escutado, suponho.

Paralela a essa dor do poeta holandês, deduzo sem concluir, que a dor, depois da hipocrisia, é o maior patrimônio da história da humanidade.

Por assim, não à toa, um poeta febril, assim escreveu:

“Aliás (…) se forem contadas as horas de agonia deste mundo, quantos séculos darão?”

Quantos? Dez séculos é razoável para você? Que tal todos?

Equação impossível de ser auferida, mas possível de ser sentida, prova final e eloquente da supremacia do coração sobre a matemática.

Para então burlar a dor é que foi criada a melancolia, o único gênero de dor que afeta a parte externa do corpo e cuja cura reside dentro do paciente, fenômeno que pode ser identificado como a maior ironia conhecida na literatura médica.

O prazer, também usado para emular a dor, foi uma invenção desastrosa do ponto de vista clínico, vez que nenhum corpo está apto a suportar muito gozo, cujo efeito lateral é a fadiga, asa mortal da funesta ave da dor.

Daí o lamento de Van Gogh em calar-se para ser ouvido. Daí a reflexão para computar a quantidade de dor no mundo, o modo sabiamente cortês de humanizá-la, porque é sentido-a dentro e fora da pele que nos tornamos humanos, ou quando menos, toleráveis.

Publicado em Fragmentos | Deixar um comentário

Covardia 1 X Barcelona 0

!cid_8A7B8355-A3AC-4FAA-933A-4344F90454F5

Os deuses do futebol veja você, não entendem de futebol. Se entendessem não teriam deixado as fabulosas seleções da Hungria 54, Holanda 74, e Brasil 82 perderem a Copa para dar glória aos fatos.

Tal pode ocorrer hoje, com este estupendo Barcelona de Lionel Messi.

No jogo pelas semifinais da Liga dos Campeões contra o Chelsea, o time catalão chegou a ter 80% do domínio da bola, chutou a gol 24 vezes contra apenas 5 do rival, e perdeu o jogo por distração e má vontade das potências ludopédicas que assistem o futebol lá das nuvens.

Toda vez que a burocracia impera, cai a dinastia da criatividade. O Chelsea jogou com 11 na defesa. A covardia além de empobrecer o jogo como espetáculo ajuda a entender porque o pragmatismo ainda sobrevive, apesar de merecer morrer.

No jogo de volta no Camp Nou, como virá o esquadrão inglês? Com 11 zagueiros? Chico Buarque queria que o futebol tivesse um esquema tático com 11 no ataque, sem goleiro. Conforme fragmento dessa crônica dele, para a Copa de 98:

“Eram eles os donos da bola, marca Mac Gregor, quando sem refletir a desembarcaram na América do Sul, um século atrás. No Rio, em São Paulo, em Buenos Aires, os ingleses detinham, além de todas as bolas, o monopólio das chuteiras, das camisas listradas e dos campos de grama inglesa, como manda a regra, perfeitamente planos e horizontais. Em sensacionais torneios, com turno e returno, jogavam então Inglaterra versus Inglaterra. Aos nativos, além da liberdade de torcer por uma ou outra equipe, sobrava a alegria de catar e devolver as bolas, que já naquele tempo os britânicos catapultavam com freqüência. Em 1895, segundo a crônica paulistana, confrontavam-se Railway Team e Gas Team, quando huma pellota imprensada entre dous athletas subiu aos céos e foi cahir às mãos de hum assistente. D’improviso, o cidadão seqüestrou a pellota. Metteu-a sob o braço e escafedeu-se no matagal, perseguido por dezenas de crioulos. Foi alcançado ao cabo de meia hora, às margens do rio Ypiranga. E celebrou-se alli, em terreno pedroso e cascalhudo, o primeiro jogo de bola entre brasileiros, com cincoenta actuantes e nenhum goalkeeper”

Hoje a prevalência pelo medo em enfrentar o Barcelona supera tudo, até a coragem. Queria ver um time corajoso, entrar em campo e perder de 28 a 0 do Barcelona, mas perder com dignidade, não vencer com desonra, como já fez a Inter de Milão em 2009 pelo mesmo certame, usando como principal jogador a Covardia e a Vergonha de jogar com 10 atrás.

Que o Barça continue tendo 99% da posse de bola, que continue massacrando os adversários, até que um dia apareça um treinador ou um filósofo e lhe diga: farei igual, nem que para isso tenha de perder.

Espero que o Barcelona não apenas ganhe do Chelsea, mas que o desmoralize perante o esporte bretão.

Publicado em Futebol | Deixar um comentário

O Canibalismo Científico de Pernambuco

Por sobre o espetacular caso de canibalismo ocorrido em Garanhuns, PE, não posso recorrer a mais ninguém senão a Machado, num delicioso texto publicado em 1ª de Setembro de 1895; delicie-se:

 ”AQUILO QUE LULU SÊNIOR disse anteontem a respeito do professor inglês que enforcaram na Guiné trouxe naturalmente a cor alegre que ele empresta a todos os assuntos. As pessoas que não lêem telegramas não viram a notícia; ele, que os lê, fez da execução do inglês e dos autores do ato uma bonita caçoada. Nada há, entretanto, mais temeroso nem mais lúgubre.

Não falo do enforcamento, ordenado pelas autoridades indígenas. Eu, se fosse autoridade de Guiné, também condenaria o professor inglês, não por ser inglês, mas por ser professor. Enforcaram o homem, e não há de ser a simples notícia de um enforcado que faça perder o sono nem o apetite. A descrição do ato faria arrepiar as carnes, mas os telegramas não descrevem nada, e o professor foi pendurado fora da nossa vista. Nem mais teremos aqui tal espetáculo o desuso e por fim a lei acabaram com a forca para sempre, salvo se a lei de Lynch entrar nos nossos costumes; mas não me parece que entre.

Quanto ao crime que levou o professor inglês ao cadafalso africano, não é ainda o que mais me entristece e abate. Dizem que comeu algumas crianças. Compreendo que o matassem por isso. É um crime hediondo, naturalmente; mas há outros crimes tão hediondos, que ainda afligindo a minha alma, não me deixam prostrado e quase sem vida. Demais, pode ser que o professor quisesse explicar aos ouvintes o que era canibalismo, cientificamente falando. Pegou de um pequeno e comeu-o. Os ouvintes, sem saber onde ficava a diferença entre o canibalismo científico e o vulgar, pediram explicações; o professor comeu outro pequeno. Não sendo provável que os espíritos da Guiné tenham a compreensão fácil de um Aristóteles, continuaram a não entender, e o professor continuou a devorar meninos. Foi o que em pedagogia se chama “lição das cousas”.

Se assim fosse, deveríamos antes lastimar o sacrifício que fez tal homem, comendo o semelhante, para o fim de ensinar e civilizar gentes incultas. Mas seria isso? Foi o amor ao ensino, a dedicação à ciência, a nobre missão do progresso e da cultura? Ou estaremos vendo os primeiros sinais de um terrível e próximo retrocesso? Vou explicar-me.

Em 1890, foi descoberto e processado em Minas Gerais um antropófago. Um só já era demais; mas o processo revelou outros, sendo o major de todos o réu Clemente, apresentado ao juiz municipal de Grão Gogol, Dr. Belisário da Cunha e Melo, ao qual estava sujeito o termo de Salinas, onde se deu o cave.

Não era este Clemente nenhum vadio, que preferisse comer um homem a pedir-lhe dez tostões pare comer outra cousa. Era lavrador tinha vinte e dois anos de idade. Confessou perante o subdelegado haver matado e comido seis pessoas, dois homens, duas mulheres e duas crianças. Não tenham pena de todos, os comidos. Um deles, a moça Francisca, antes de ser comida por ele, com quem vivia maritalmente, ajudou-o a matar e a comer outra moça, de nome Maria. Outro comido, um tal Basílio, foi com ele à casa de Fuão Simplício, onde pernoitaram, estando o dono a dormir, os dois hóspedes com uma mão-de-pilão o mataram, assaram e comeram. Mas tempos depois, um sábado, 29 de novembro de 1890, levado de saudades, matou o companheiro Basílio e estava a comer-lhe as coxas, tendo já dado cabo da parte superior do corpo, quando foi preso. Os dois meninos comidos antes, chamavam-se Vicente e Elesbão e eram irmãos de Francisca, filhos de Manuela. Por que escapou Manuela? Talvez por não ser moça. Oh! mocidade! Oh! flor das flores! A mesma antropofagia te prefere e busca. Aos velhos basta que os desgostos os comam.

Importa notar que o inventor da antropofagia, no termo de Salinas não foi Clemente, mas um tal Leandro, filho de Sabininha, e mais a mulher por nome Emiliana. Propriamente foram estes os que mataram um menino, e o levaram para casa, e o esfolaram e assaram; mas, quando se tratou de comê-lo, convidaram amigos, entre eles Clemente, que confessou ter recebido uma parte do defunto. A informação consta do interrogatório. Não tive outras notícias nem sei como acabou o processo. Hão de lembrar-se que esse foi o ano terrível (1890-91) em que se perdeu e ganhou tanto dinheiro que não pude ler mais nada. Comiam-se aqui também uns aos outros sem ofensa do código—ao menos no capítulo do assassinato.

A conclusão que tiro do caso de Salinas e do caso da Guiné é que estamos talvez prestes a tornar atrás, cumprindo assim o que diz um filósofo—não sei se Montaigne—que nós não fazemos mais que andar à roda. Há de custar a crer, mas eu quisera que me explicassem os dois casos, a não ser dizendo que tal costume de comer gente é repugnante e bárbaro, além de contrário à religião; palavra de civilizado, que outro civilizado desmentiu agora mesmo na Guiné. Não esqueçam a proposta de Swift , para tornar as crianças irlandesas , que são infinitas, úteis ao bem público. “Afirmou-me um americano disse ele, meu conhecido de Londres e pessoa capaz, que uma criança de boa saúde e bem nutrida, tendo um ano de idade, é um alimento delicioso, nutritivo e são, quer cozido, quer assado, de forno ou de fogão”. É escusado replicar-me que Swift quis ser apenas irônico. Os ingleses é que atribuíram essa intenção ao escrito pelo sentimento de repulsa; mas os próprios ingleses acabaram de provar na África a veracidade e (com as restrições devidas à humanidade e à religião) o patriotismo de Swift.

Talvez o deão e o americano se hajam enganado em limitar às crianças de um ano as qualidades de sabor e nutrição. Se tornarmos à antropofagia, é evidente que o uso irá das crianças aos adultos, e pode já fixar-se a idade em que a gente ainda deva ser comida: quarenta a quarenta e cinco anos. Acima desta idade, não creio que as qualidades primitivas se conservem. Como é provável que a atual civilização subsista em grande parte, é naturalíssimo que se façam instituições próprias de criação humana, ou por conta do Estado, ou de acordo com a lei das sociedades anônimas. Penso também que acabará o crime de homicídio, pois que o modo certo de defesa do criminoso será, logo que estripe o seu inimigo ou rival, ceá-lo com pessoas de polícia.

Horrível, concordo, mas nós não fazemos mais que andar à roda, como dizia o outro… Que me não posso lembrar se foi realmente Montaigne, pois iria daqui pesquisar o livro, para dar o texto na própria e deliciosa língua dele! Os franceses têm um estribilho que se poderá aplicar à vida humana, dado que o seu filósofo tenha razão:

 

Si cette histoire vous embête,
Nous allons la recommencer.

 Os portugueses têm esta outra, para facilitar a marcha, quando são dois ou mais que vão andando:

 

Um, dous, três;
Acerta o passo, Inês,
Outra vez!

Estribilhos são muletas que a gente forte deve dispensar. Quando voltar o costume da antropofagia, não há mais que trocar o “amai-vos uns aos outros”, do Evangelho, por esta doutrina: “Comei-vos uns aos outros”. Bem pensado são os dois estribilhos da civilização.”

Publicado em Crônicas | Deixar um comentário

A Fábrica de Chicote

- Sim, produzimos e vendemos chicotes, mas não se pode fazer uso deles, ao menos para o propósito comum para o qual ele foi criado.

- E se eu o comprar e o usar?

- Infringirá uma lei marcial, cuja pena é uma mínima sanção.

Se um chicote não puder ser usado para o seu fim, que serventia poderia o homem encontrar nesse objeto cuja origem é puramente filosófica e transcendental? A contenda entre o comprador do chicote e o fabricante teve lances de ósseo pugilato verbal:

- Soa-me extravagante e excessivo uma fábrica que proíbe o emprego daquilo que fabrica.

- Não é caso de extravagância. Um chicote que não chicoteia serve para combater no homem o mal que ele reprime, desde o ventre materno até aquele outro ventre, chamado túmulo. O mal pulsa dentro homem; o chicote estanca o pulsar.

A aquisição de um belo exemplar com cabo de madrepérola pelo indigitado homem poderia trazer-lhe aborrecimentos gigantes, mesmo assim decidiu pela compra.

- Lembre-se: não se pode fazer uso da peça, sob pena de minimizá-lo.

- É minha; daqui por diante sou o senhor deste soberbo invento. – e saiu da fábrica, produzindo um silêncio magnífico.

O homem desembrulhou a embalagem e admirava o chicote como um noivo deve admirar a noiva que se despe lentamente, caminhava inebriado como quem recolhe despojos duma guerra e, entre saciado e insaciável, sentia ferver nas entranhas a urgência para aplicar o chicote no primeiro passante que lhe ousasse dirigir o olhar, ou tirá-lo daquele transe.

- Não compreendo as leis deste absurdo mundo – disse ele ao encontrar na rua um engraxate negro como a graxa –; é me dado o direito e o poder para adquirir essa linda peça, mas me é vetado o uso; Não é razoável, mas cômico. – e estalou cheio de vigor a ponta do chicote no lombo vulnerável do engraxate, que gemeu com uma dignidade tão pura que só é possível ser encontrada nos inocentes.

Imediatamente sobrevieram sobre o homem as forças superiores controladas pela Fábrica. O levaram ao tribunal e o condenaram, e o executaram e o reduziram ao mais fragmentário resíduo que um espécime humano pode atingir; fora enfim reduzido à mínima potência.

A Fábrica tinha suas regras, era tolerada a compra, jamais a infração, punida com exemplar pontualidade.

Publicado em Fragmentos | Deixar um comentário

Banquete com os Gênios

29/01/2007

Era duas vezes uma festa. Contar uma história fictícia com o tradicional “era uma vez” deixa em descrédito o contador que historia suas invenções. O organizador da festa só mandou convites para os gênios; meio-gênios não eram aceitos. Só os gênios absolutos.

Aristóteles sentou à mesa desconfiado; dividiu-a com Pitágoras, Copérnico e Michelangelo; os quatro faziam o mundo levitar. Noutra mesa estavam Oscar Wilde e seu charuto, Rui Barbosa e Homero, que era vítima do olhar incrédulo do brasileiro que não acreditava mesmo que o poeta grego fosse  real; a um canto, mojito em punho, Hemingway se distraia com as histórias fantásticas de Shakespeare, que nunca tivera uma tão seleta  platéia e improvisou uma peça, assim, de estalo; olhou do lado e viu Grande Otelo; perguntou a ele se podia fazer escrever um Otelo melhor que o mouro; o brasileiro topou na hora; de pé, Machado e Leonardo discutiam a pré-existência da alma, enquanto o italiano rascunhava um retrato caricato do escritor que ficou mal humorado, mas com estilo; Beethoven, incomodado, queria tirar notas do zumzum, mas ainda estava surdo como uma ostra; o que o aborreceu tremendamente; na janela olhava as estrelas Olavo Bilac e Galileu, este, incrédulo, sem saber o que admirar se o brilho ou se os versos; Proust, na dele, não queria conversa com Bill Gates que tentava lhe mostrar um software anti-melancolia.

Santo Agostinho recusava um scotch oferecido por Churchil que conseguira se livrar do lenga-lenga do jovem Mozart que queria o convencer a ele que a música era a vida em forma de bemóis; cansado de esperar, Van Gogh foi à caça de Gauguin, saber o que este fizera da sua orelha; já Marlon Brando disputava à tapa as belas garçonetes com Lord Byron; Newton e Einstein falavam coisas tão complexas, mas tão complexas que saiam faíscas de íons de suas falas; caindo de sono, Borges pedia a Marie Curie que parasse de falar de radioatividade ao passo que Freud olhava com atenção o que fazia Woody Allen que ensaiava um monólogo que Kafka não queria recitar.

De repente, Caruso e Gardel aparecem no palco cantam fora do tom e são vaiados por Nietzsche que ouvia uma explicação de Aleijadinho de como compunha suas obras órfão das mãos; Niemayer ouvia calado as imprecações de Arquimedes que não podia crer como o arquiteto fazia de um simples risco um ponto de equilíbrio; Tom Jobim mostrava a Wagner, que uma birita ajudava a recriar o que criado estava, ouvindo essa sugestão, Cervantes pedia a Dalí que lhe explicasse o relógio derretido e se aquilo era obra da “birita”; Alexandre discutia com Guglielmo (inventor do rádio) porque ele não nasceu no seu tempo; Clarice Lispector, Rembrandt, Camões e Luiz Gonzaga observavam a altercação entre Henry Ford e Tomás de Aquino que haviam feito duras críticas a Karl Marx que dizia que o problema não era seu se aplicaram mal suas idéias.

Graham Bell quebrava a cabeça com Platão acerca dos princípios do telefone celular usado por Sócrates que usava o aparelho para falar com Picasso e só dizia “que nada sei” o tempo todo, o que irritou profundamente Manuel Fangio, acostumado a outros ruídos; Noel Rosa ensinava em russo um samba novo a Dostoievski, que traduzia para o iídiche a Goethe que explicava a Dante que esse ritmo era do Novo Mundo; Pete Sampras jogava charme para Maria Esther Bueno que estava interessada no que Napoleão dizia ao Senna, acerca da diferença entre seu cavalo e um F1; o pequenino Toulouse-Lautrec perguntava a Michael Jordan como ele crescera tanto (não espantava o fato de este pairar – e não parar – no ar); Maomé refletia e queria saber mais sobre a resistência pacífica de Gandhi, Guimarães Rosa ouvia impávido (e pálido) as razões de Calvino para romper com a igreja católica; Maradona tentava ensinar a Tolstoi como equilibrar uma laranja com o calcanhar, mas o camponês desistiu na oitava tentativa; Drummond não entendia uma palavra que James Joyce dizia, mas fazia com elas uma poesia acessível.

Boquiaberto com o sucesso de sua empreitada, o organizador do banquete não pôde conter seu orgulho; bateu com o talher na borda dum prato de porcelana que trazia à mão e o atrito produziu um silvo arisco; Beethoven gritou “ouvi!”, todos se espantaram e o anfitrião disse que sentia muito interromper o bate papo, mas já estava na hora de o sonho acabar, pois mesmo os mais desvairados sonhos, têm prazo para o fim; Martin Luther King protestou, dizendo que tinha um outro sonho, no que John Lennon concordou dizendo que o sonho não acabou. Constrangido, o organizador ganhou uma sonora vaia, saiu meio assim à francesa, e deixou rolar a festa, para deleite dos convidados e da sua imaginação.

Publicado em Fragmentos | Deixar um comentário

A Superclasse – Segundo Paulo Coelho

13/08/2008

O escritor (de língua portuguesa) Paulo Coelho lançou seu novo livro que trata do mundo mais sedutor do mundo dentro deste mundo, o das celebridades. Lá, Coelho passeia pelos bastidores desse mundão de nenhum deus. Li os dois capítulos do livro que veio junto com a minha assinatura da revista Caras. Naturalmente.

Coelho enfatiza a “Superclasse”, círculo de pessoas que, segundo nos faz crer, define o meu e o seu destino, mas não os deles próprios. Não sei quanto a você, mas a minha vida já é ditada e equilibrada por essa classe seleta que envolve gente do quilate de Gugu Liberato, Britney Spears, Xuxa, o igual Coelho e demais personagens que tem honrando a humanidade. Ele disse numa entrevista que é o maior intelectual do Brasil. Tudo o que ele disser em proveito de sua efígie eu apoio. Creio que você deve fazer o mesmo.

Se Coelho, do alto de seus milhões de leitores mundo a dentro, diz que é o maioral, que é a mente por trás deste século, não podemos discutir. Os 100 milhões de livros que ele diz que vendeu autentica-o a dizer o que quiser, inclusive a verdade, que é dolorida quando dita por um desafeto ou por um espantalho. Diz-se que os “intelectoloides” têm inveja dele pelo sucesso comercial. Eu mesmo tenho. Se tivesse 100 milhões de leitores poderia ter 100 milhões de mulheres, 200 milhões de inimigos; tudo assim, exponencial.

Mas não faço crítica literária; quero me prender nisso da Superclasse. Esse pessoal é como uma entidade que paira por sobre o comum dos homens. Igual aos gafanhotos e aos arqueiros do céu, como também são conhecidos os habitantes daquelas lonjuras. Eles têm alto poder de tudo; de compra, de perfil, bélico, artístico. Dominam o mundo e, por extensão, as suas nossas mentes. Não estamos lascados com tutores assim? Não estamos. Aristóteles queria que nós fossemos governados por uma elite de sábios, reis-filósofos, essas purezas. Mas o pensamento do mestre é artesanal. Controlados por imbecis, temos a glória de zombar dos controladores, deleite que nos seria negado, caso só super-mentes nos guiassem. Como censurar um Descartes por ter criado e desenvolvido o Método que desembocou nos números binários de Leibniz? Como desacatar um Kepler por (apesar da miséria em que vivia) abrir as possibilidades do universo para a modernidade? Imagine-se dando uma dura no Kiekergaard pelo seu veio demasiado católico? Xingar Waldo Emerson pelo excesso de pensar…; não seria possível.

Um planeta governado por coelhos é muito mais interessante; de coelhos, geram-se golfinhos, que como aprendemos com a ciência, é um animal que pensa de forma unilateral, como os humanos. Sapiência demais embrutece, segundo diz Pascal, no paraíso da ignorância é onde reside o bem-estar; isso de ficar pensando, pensando muito, tira o juízo e o coloca em oficinas perigosas, como as que fazem a manutenção das mentes dos invejados seres da Superclasse. Tabulas niente, como diriam os romanos.

Publicado em Crônicas | Deixar um comentário